“Demandas sociais, ambientais e de governança estão transformando a forma como as organizações conduzem seus negócios”, ressalta Cristiano Venâncio em entrevista para a FRST 

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 Nos últimos anos, o conceito de ESG (Environmental, Social and Governance) tem ganhado destaque no cenário empresarial global. O aumento significativo nas buscas relacionadas ao tema reflete a crescente importância atribuída por empresas e sociedade a práticas que consideram impactos ambientais, responsabilidade social e boas práticas de governança. 

Nessa entrevista, Renata Soares conduz uma conversa esclarecedora com Cristiano Venâncio, estrategista de negócios e mestre em Governança e Sustentabilidade, explorando a relevância do ESG no contexto brasileiro e destacando organizações referência, como Ambev, Movida, Grupo Boticário e Suzano. 

A entrevista proporciona uma visão abrangente sobre a relevância do ESG, destacando casos exemplares e desafios que as organizações enfrentarão nos próximos anos. 

Confira a entrevista na íntegra abaixo. E para mais conteúdos, confira nosso podcast oficial no Spotify!   

Renata Soares 

Você, muito provavelmente, já deve ter ouvido falar sobre a sigla ESG (Environmental, Social and Governance) ou, em português, ASG (Ambiental, Social e Governança). Segundo o Valor Econômico e um levantamento do Google Trends, as buscas pelo tema ESG cresceram 150% entre janeiro de 2021 e fevereiro de 2022. 

O Brasil foi o país latino-americano que mais pesquisou sobre ESG, e um dos 25 países no mundo que mais buscou pela temática no período. 

Eu sou a Renata Soares e vou falar com Cristiano Venâncio sobre esse tema tão comentado ultimamente. 

Olá Cristiano, tudo bom? 

Cristiano Venâncio 

Olá, Renata, obrigado pelo espaço e pela possibilidade de dialogar sobre esse tema tão relevante, que tem sido um dos meus principais focos em estratégia, inovação e governança pelas organizações em que temos trabalhado e contribuído nesses processos.

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Renata Soares 

Maravilha, fico muito feliz. Para começar, eu trago uma grande curiosidade. Quais organizações hoje no Brasil são referência em práticas ESG? Por quê? 

Cristiano Venâncio 

Renata, a gente percebe e acompanha várias organizações que se destacam dentro desse cenário. Eu posso citar aqui alguns casos, como é o caso da Ambev, que é um dos mais ambiciosos. A gente vem acompanhando as práticas ESG que ela tem trazido dentro das suas metas, na própria organização. 

Mas eu percebo também que a questão da ESG é importante para qualquer tipo de organização, seja pequena, média ou grande porte, e até mesmo de características familiares ou não. 

Outro exemplo é o caso da Movida, que também tem trazido aspectos interessantes dentro do desenvolvimento das práticas ESG no Brasil. Mas hoje eu quero trazer em especial duas outras organizações que têm ocupado um posicionamento relevante dentro das práticas e dos pilares ESG. 

É o caso do Grupo Boticário, que é uma ótima referência nessas práticas. Até 2023, o Grupo Boticário almeja ter o seu quadro composto por pelo menos 50% de colaboradores negros. E a meta também é ter pelo menos 25% de pessoas pretas em funções de liderança corporativa. 

Olha que legal, quando a gente vê a prática sendo disseminada dentro do pilar impacto social, a partir do que O Boticário acredita dentro do seu posicionamento. O grupo também tem como meta ter 50% de mulheres em cargos de diretoria até 2025 e, até 2030, ele quer estabelecer cargos de liderança para grupos minorizados, sempre buscando essa representatividade. 

Eu acompanho os movimentos do grupo, seu planejamento estratégico humano, transparente, que tem muito cuidado com a comunidade de uma forma geral. Outro exemplo que a gente tem acompanhado muito é o caso da Suzano, que é uma referência para o pilar ambiental. 

A empresa tem plantios em áreas de conservação que capturam e estocam mais de 270 milhões de toneladas de dióxido de carbono da atmosfera. E um dado interessante é que, em 2019, o mundo emitiu 36.4 bilhões de toneladas desse poluente. 

Se a gente considerar esse dado, a Suzano seria responsável por aproximadamente 0.7% da diminuição de dióxido de carbono de toda a atmosfera. Isso é um dado muito interessante e faz com que a gente veja o impacto que essa organização tem trazido dentro desse aspecto nas suas práticas ESG. 

No último ano, ela plantou uma árvore nativa a cada 2 minutos. Além de ter mais de 500 nascentes em recuperação no Rio Mucuri, na Bahia, e registrar zero desmatamento. No site da Suzano, é possível encontrar de forma estruturada todas essas informações e publicações em relação a esse tema. 

Renata Soares 

Quanta coisa boa está acontecendo. Traz muita alegria saber que tem cases como esses no Brasil. Agora eu quero ir para o outro extremo. Além de questões legais, quais impactos podem ocorrer às empresas que não adotarem efetivamente os princípios ESG nos próximos anos? 

Cristiano Venâncio 

Renata, essa é uma excelente questão, que faz com que a gente comece a olhar sobre o outro lado. Quando a gente traz os princípios e as práticas ESG no olhar dos próximos anos, muito se questiona sobre o futuro das organizações que não estão olhando para esse caminho. 

Demandas sociais, ambientais e de governança estão transformando a forma como as organizações conduzem seus negócios e o pensamento sobre as suas estratégias. Então, quando eu digo que não é exagero pensar em práticas de governança, eu vou além, para dizer que não é exagero também afirmar que as práticas ESG são uma questão que necessariamente devem estar dentro da estratégia e no olhar para os resultados das organizações. 

Elas são aplicadas de forma mais robusta e buscam, sem dúvida, gerar mais lucro para as organizações. Mas também precisam olhar para a responsabilidade ambiental e social, de toda a execução da dinâmica do dia a dia da organização. 

É claro que, quando comparadas às organizações que não aplicam ESG, já percebemos movimentos e pesquisas sendo publicadas, direcionadas à geração de valor que corresponde diretamente ao núcleo dessas organizações. Além disso, Renata, notamos a criação de mecanismos para que as empresas efetivamente adotem essas práticas e as coloquem em prática. É crucial que elas estabeleçam diálogos com seus clientes e fornecedores, e observamos que os consumidores estão cada vez mais adotando práticas responsáveis. 

Percebemos uma mudança nos movimentos e hábitos de consumo, com uma cadência de transformação e evolução que considera o impacto dessas organizações na cadeia e no contexto global, não apenas local. No Brasil, vemos consumidores alterando seus hábitos para reduzir os impactos ambientais, evitando produtos de empresas que realizam testes em animais e boicotando aquelas associadas ao trabalho escravo. Essa mudança está profundamente ligada a várias questões que impactam diretamente nossos hábitos de consumo. 

Para encerrar, posso afirmar que não adaptar as práticas da empresa aos princípios e ao grande desafio do ESG é colocar em xeque a própria existência da organização. 

Renata Soares 

É isso aí, não tem saída, né? Vamos ou vamos? Muito bom, e, pensando em uma empresa que está iniciando o processo de adoção dos princípios ESG, por onde você recomendaria começar? 

Cristiano Venâncio 

Essa é outra questão significativa, Renata, que envolve decidir qual caminho seguir, não é mesmo? Ao considerarmos o pilar ambiental, o pilar social e o pilar da governança, surge a pergunta: qual é o caminho? Eu tenho o hábito de destacar, e isso está relacionado ao espaço e ao contexto de onde venho, ao que acredito, ao espaço de expressão que tenho sobre as questões discutidas dentro das organizações. 

O foco na governança sustenta, a partir das práticas, os dois pilares, porque à medida que a organização, dentro de sua estratégia, reconhece a importância desses pilares, ela dissemina suas práticas de governança e, naturalmente, as práticas de responsabilidade ambiental e social se desdobram. 

Então, olhamos para o tripé de ESG de maneira mais sistematizada, mais incorporada dentro da organização. Agora, um ponto que considero muito interessante abordar, Renata, é que não adianta começarmos pelo caminho da governança se entendermos que o ESG é apenas uma estratégia de marketing, algo para comunicar ao mercado que possuímos a prática. 

Se não assumirmos efetivamente isso no comportamento da organização, se entendermos que o ESG é apenas uma estratégia de marketing, já estamos começando no caminho errado. 

Na minha concepção, precisamos entender que quando falamos de um comportamento ESG dentro da organização, isso parte da cultura, envolve olhar para nosso conjunto de crenças e valores internos, compreender que isso é importante para a organização, que faz parte do dia a dia. E a cultura não se constrói da noite para o dia, não é mesmo? É uma construção ao longo da jornada que vai criando e desenvolvendo o comportamento interno dentro da organização. 

Quando penso nesse caminho de incorporar o ESG nesse tripé de forma mais relevante dentro da organização, naturalmente é importante que estabeleçamos metas claras, alinhadas ao propósito e à missão, para podermos acompanhar por bons indicadores a mensuração de se essas metas estão sendo atingidas ou não. Isso, é claro, incorporando as questões de ESG ao próprio DNA, à forma como a organização toma suas decisões, como se posiciona para o mercado. 

Eu diria também, Renata, e é interessante considerar, que um primeiro passo seja realizar um bom diagnóstico para avaliarmos a situação da organização, a partir das melhores práticas de mercado, e entender como ela se encontra, ou não, em relação às práticas que pode implementar. Um diagnóstico faz todo o sentido e já indica um bom direcionamento sobre como começar. 

Renata Soares 

Caso uma pessoa colaboradora trabalhe em uma empresa que está num passo lento na adoção dos princípios ESG, ela tem como agir de alguma forma para promover os princípios no dia a dia? 

Cristiano Venâncio 

Que desafio, Renata. Acredito que estou em uma organização que não necessariamente segue o mesmo ritmo, não é mesmo? Isso é um ponto bastante sensível, e então? Renata, eu acredito que, de certa forma, todos nós já adotamos práticas ESG em nosso dia a dia, formal ou informalmente. 

Temos alguns comportamentos e práticas que naturalmente fazem parte da nossa vida como cidadãos, do nosso cotidiano. Separamos os resíduos, destinamos e realizamos a coleta de forma correta, optamos pelo uso de transportes mais responsáveis e por fontes renováveis de energia. 

Portanto, já incorporamos práticas no nosso dia a dia que estão diretamente ligadas ao comportamento ESG, mas geralmente essas ações que realizamos estão automaticamente incorporadas ao nosso comportamento, onde muitas vezes não temos consciência dessa análise e do impacto que fazem parte da nossa essência. Podemos, por exemplo, priorizar o relacionamento com fornecedores e comerciantes locais que seguem princípios de economia circular. 

Enquanto acreditamos, temos uma compreensão mínima do tipo de comportamento que esses fornecedores e consumidores em geral têm. Então, podemos também direcionar nosso olhar para essas vertentes ao começarmos a avaliar para onde e como podemos contribuir enquanto colaboradores dentro de uma organização. Quero dizer, Renata, que muito além da prática da empresa com a qual colaboramos, parte da nossa atitude como seres humanos, não é? 

Nossa atitude e como somos responsáveis por fortalecer esse processo. Eu mencionei que as pessoas estão mais conscientes em relação às marcas que escolhem ao comprar e em relação aos seus hábitos de consumo. Isso faz toda a diferença dentro da cadeia e, naturalmente, impacta diretamente nas empresas, que começam a perceber esse tipo de comportamento e são incentivadas a adotar práticas mais responsáveis. 

Prestar atenção na origem dos produtos, pesquisar sobre as marcas, entender e até investigar os relatórios publicados pelas organizações é um caminho superinteressante. 

De uma forma geral, cabe a nós, enquanto seres humanos, enquanto colaboradores dessas organizações, compreender a importância dessas práticas e desse caminho, naturalmente, influenciando nossa família, amigos, colegas de trabalho e, enfim, todo esse grupo social, para que possamos, de alguma forma, alinhar todos na mesma direção, o que já representa um grande avanço na minha concepção. 

Renata Soares 

Cristiano, essa sua fala me lembrou uma frase da Anne Frank: “que maravilhoso que é ninguém precisar esperar um momento único para melhorar o mundo”. Cada um pode fazer a sua parte. E isso é maravilhoso mesmo. Então, para concluir, eu queria agora ir para uma questão um pouco mais aspiracional. Sendo otimista, se a maior parte das organizações mundiais aderir realmente aos princípios ESG, como você, Cristiano, idealiza a sociedade, o ambiente e as organizações em 5 ou 10 anos? 

Cristiano Venâncio 

Então, Renata, esse é um grande sonho. Quando olhamos para a sociedade de uma forma geral e projetamos uma visão de 5 ou 10 anos, idealizando efetivamente esse caminho, é… Eu considero isso como um grande sonho. Ele nasce necessariamente ao pensar em uma mudança de comportamento das organizações. Isso é uma questão global, um grande desafio, urgente. 

Não podemos deixar de considerar e incluir isso na pauta estratégica das organizações. Não podemos pensar que o mundo seguirá sem uma sociedade que assuma aspectos e responsabilidades menos direcionados, não é mesmo? 

O caminho deve ser traçado, e, ao olhar para a responsabilidade do ponto de vista global, se quisermos alcançar uma visão de futuro duradoura para a nossa sociedade como um todo. 

Além disso, não podemos romantizar o debate sobre ESG, porque o mundo demanda mudanças drásticas em nosso comportamento, na tomada de decisão e, fundamentalmente, na transformação dos modelos de negócio. 

Isso, para mim, Renata, não é um desafio fácil, mas precisa emergir para buscarmos uma sociedade cada vez mais responsável em suas práticas organizacionais, incorporando essa responsabilidade ambiental e social em sua essência, em seu comportamento. 

Sem dúvida, é necessário olhar para isso com muito cuidado, com zelo, em busca de uma sociedade mais responsável, sem trazer, como mencionei, uma visão romantizada, mas sim uma sociedade mais coerente, onde o discurso esteja totalmente associado à prática e à forma como conduzimos os negócios pelo mundo. 

Renata Soares 

Nossa, a conversa está ótima, mas a gente está chegando ao final dessa entrevista e vale ressaltar alguns pontos. A adoção de princípios ESG, além do bem para a sociedade, a manutenção do planeta e a construção de um mundo melhor, afeta diretamente os resultados de negócio. 

As organizações cujo comportamento em relação às questões ambientais, sociais e de governança está sendo colocado em primeiro plano ficam cada dia mais em posição de destaque. Cristiano, aí agora é para gente fechar com chave de ouro. Você teria alguma indicação ou sugestão de conteúdo para quem quiser saber mais sobre o tema? 

Cristiano Venâncio 

Hoje, ao buscar informações sobre o tema, existem inúmeras fontes e diversos conteúdos sendo compartilhados. Recomendo acompanhar de perto o movimento do Capitalismo Consciente Brasil, disponível no próprio site do instituto, onde é possível encontrar todo o panorama do movimento em desenvolvimento e todas as práticas que o Capitalismo Consciente tem promovido no Brasil. Essa é uma sugestão valiosa para manter-se informado e acompanhar de maneira mais aprofundada. 

Renata Soares 

Muito obrigada, Cristiano, pela contribuição imensa. Foi um momento muito rico e esclarecedor. 

Cristiano Venâncio 

Eu que agradeço, Renata. Sinto-me verdadeiramente feliz por compartilhar um pouco do que temos realizado nesta jornada, conectando pessoas e contribuindo para transformar o presente das empresas do futuro, certamente impactando positivamente as organizações. É uma experiência muito gratificante estar aqui com vocês. 

Renata Soares 

É isso aí, e a gente realmente espera que essa conversa tenha gerado boas reflexões e ideias para colocar em prática. E eu deixo aqui duas perguntas: qual o seu papel neste contexto e o que você vai fazer diferente a partir de agora? 

E se quiser aprender como definir metas ESG de maneira efetiva, leia nosso ebook e aprenda a desdobrar e organizar metas para seu sucesso!

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